Rio boêmio

Um guia com o melhor da boemia no Rio de Janeiro.

Um guia com o melhor da boemia no Rio de Janeiro.

Capital do samba, berço da bossa nova, terra do Carnaval e de tantos cronistas da noite, o Rio é boêmio de nascimento. Aqui surgiram botequins cujo charme inspiraria as paredes azulejadas, as cadeiras de madeira escura, os tampos de mármore e os ventiladores cromados dos bares de meio Brasil. Tempos depois, ironicamente, essa roupagem neocinquentista foi importada de volta pelo Rio em endereços como o Belmonte e a filial do paulistano Astor.

Para conhecer os bares arquétipos dessa tradição, basta dar uma volta no Centro do Rio, terreno fértil de grandes instituições boêmias. É ali que ficam, por exemplo, o Bar Luiz, de 1887 (na Rua da Carioca desde 1927), clássico da combinação salada de batata, kassler, salsichão e chope; a Casa Paladino, endereço de uma belíssima estante de farmácia e de bons sandubas; o Rio Minho, restaurante de 1884 com um anexo em que os petiscos portugas saem mais em conta; e, na Lapa, o Bar Brasil, com receitas alemãs desde 1907, e seu vizinho Nova Capela, de um famoso cabrito com alho. Na Lagoa, o art déco Bar Lagoa, de 1934, capricha nos pratos alemães, e em Santa Teresa, o Armazém São Thiago ocupa um sobrado de 1919 que ainda guarda as feições do antigo empório, com geladeira de madeira e balcão de mármore, um toque de charme para petiscos (como a carne-seca com aipim) regados a muitas cervejas.

Entre os bares despojados que preservam a alma carioca e fervem nos fins de semana, são dignos de visita o Bar Urca, um boteco tamanho-balcão que põe todo mundo pra se sentar na mureta às margens da Guanabara (sempre com uma cerveja, salgados e porções como o delicioso polvo com vinagrete puxado no coentro); o Bracarense, clássico do pós-praia no Leblon, conhecido pela empada de camarão e pelo chope; o Bar do Mineiro, sempre cheio de moçada, que vai ali entornar umas, jogar conversa fora e comer de pastel de feijão a feijoada; o Braseiro da Gávea, ponto de paquera do Baixo Gávea com um picanha que fatiada atrai filas de espera; o Jobi, reduto boêmio com ladrilhos hidráulicos e chope gelado; o Cervantes, cujo balcão da Barata Ribeiro, em Copa, é disputado dia e noite, muito por causa dos sandubas de pernil e filé com queijo acompanhados de rodelas de abacaxi; o Bar do Momo, na Tijuca (na Zona Norte, não na Barra!), com acepipes adorados pela freguesia, como bolovo, feijoada e um popular bolinho de arroz recheado com queijo e linguiça; o Aconchego Carioca, no Leblon, bem-vinda filial da matriz da Praça da Bandeira, que consagrou o bolinho de feijoada para além do Rio de Janeiro; e o Galeto Sat’s, botecão do último suspiro da noite, em Copa, com chope, trocentas cachaças e comidinhas da baixa gastronomia.

O tema “noite” é vasto no Rio, e para abordá-lo como a cidade merece, impossível não falar da Lapa, o pedaço que melhor resgatou a boemia carioca nos últimos 15 anos. Área condenada à degradação, o bairro contíguo ao Centro ressuscitou com força no fim dos anos 90, em endereços como o Bar Semente, que recebe bambas do choro e do samba-jazz, eventualmente com uma canja de figuras como Chico Buarque. Perto dali, despontam pelo menos outros dois templos do samba muito frequentados por turistas e moradores: o Carioca da Gema, num casarão restaurado da Mem de Sá com shows todas as noites, e o Rio Scenarium, três andares com mobília e objetos de época, decoração cenográfica e shows de samba, choro e gafieira.

O samba não é exclusividade da Lapa. Em Copacabana, as rodas de batucada e as noites de choro e bossa nova são a alma do Bip Bip, botequim pequeno e informal frequentado por bambas do gênero. Outras respeitáveis rodas de samba rolam na Pedra do Sal, uma viela no Cais do Valongo (Zona Portuária), ao ar livre mesmo, às segundas, e, não muito longe dali, no Trapiche Gamboa, um antigo armazém transformado em bar com pé-direito alto, gostosa varanda, bons quitutes e craques da música.

O Rio não vive só de carioquices – embora nós as adoremos. Cosmopolita e contemporânea a ponto de receber uma final de Copa do Mundo e sediar as Olimpíadas em um intervalo de apenas dois anos, a cidade multiplicou seus endereços hypados com viés mais moderno, dos quais são exemplos o SubAstor, área subterrânea do Astor com drinques excelentes, conforto de lounge e jeito de speakeasy moderno, em Ipanema; o Bar dos Descasados, que tem uma atmosfera sexy, no Hotel Santa Teresa; o Baretto-Londra, pub do Hotel Fasano com décor by Philippe Starck, balcão classudo e rock clássico nas caixas; o Bar d’Hôtel, no Marina All Suites (e de frente para as areias do Leblon), com os drinques moderninhos do premiado mixologista Tai Barbin; o agradável e despretensioso bar de vinhos Winehouse, em Botafogo; o hipster (sim, hipster) Comuna, misto de galeria, loja, café, bar e hamburgueria também em Botafogo (ao lado fica o Alfa Bar, onde a galera toma breja em pé, na rua); o Yeasteria, aberto em 2015 na Tijuca e referência em cervejas especiais; o San Remo, bar do complexo Lagoon, na Lagoa, que estará fechado até 25 de setembro, mas deve reabrir em alto estilo; o Venga!, bar de tapas espanhol que nasceu como um fenômeno no Leblon, em 2009, antes de ganhar filiais em Ipanema, em Copa e até em São Paulo; e o descolado Void, mix de bar e loja de surfe, skate e utilidades no Leblon.

Para se jogar na pista, a noite carioca também é pródiga em casas de gêneros e públicos variados. A começar pelo rock, são endereços de resistência o Bar Bukowski, em Botafogo, o Rock Experience, no Centro, e o Kult Kolector, na Barra, com shows de rock e blues, além da festa itinerante Rocka Rocka; para curtir o autêntico funk carioca, considere o Castelo das Pedras, em Jacarepaguá, e as festas Recalcada, na Fosfobox (onde também rolam nights de indie, hip hop e eletrônico), em Copacabana, Baile da Favorita, na Acadêmicos da Rocinha, e Eu Amo Baile Funk, no Circo Voador; para música eletrônica, há o Palaphita Gávea, badalado bar-balada no Jockey Club, a The Week, para a moçada LGBT, na Saúde, e a festa Wobble, na Fosfobox; e, para sertanejo, a Pink Elephant, que realiza shows com duplas, mas também promove bailes funk, rodas de samba e toca de tudo na pista, na Barra; as quartas-feiras do Jungle Garden Pub, em Botafogo; e as quintas do Lapa 40°.

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E lembre-se, se beber, não dirija.


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